sábado, junho 24, 2006

Entrevista Alan Moore - Parte 02


OPUS: o envolvimento com a magia

Alan Moore


Você é um praticante da magia. Já lançou alguns CDs com performances sobre o tema. A maioria das pessoas, quando escuta algo sobre mágica, lembra de bruxas ou, sei lá, do Harry Potter, do Gandalf, do Mandrake... O que diabos faz "um mágico da vida real"? Um mágico, no limite, deve ser alguém poderoso o suficiente para fazer mais ou menos tudo o que quer fazer. Essa é a minha leitura. Toda criatividade é magia. Tudo faz parte do ato de fazer alguma coisa surgir do nada. Mágica sempre teve a ver com arte e linguagem, desde os tempos das bruxas, das fábulas, dos grandes feiticeiros, dos anos 1500 até a Renascença... Eu acredito que tudo isso tem a ver com arte, com uma maneira diferente de lidar com nossa consciência. Desde a ascensão do que se define como a Era da Razão, nós estamos sendo governados por um paradigma científico que mais ou menos definiu o que nós acreditamos ser real e o que acreditamos não ser. E se a ciência teve, e tem, um incrível valor para o progresso da humanidade como uma cultura, ela tem um ponto cego significante que é a consciência. A ciência é inteiramente baseada em evidências empíricas, em coisas que podem ser repetidas no laboratório. Mas a espécie humana não pode ser reproduzida, criada em laboratório. Isso dá um nó nesse processo. Por isso a consciência esteve sempre do lado de fora do território científico.

Mas já há muita discussão a respeito do assunto... Verdade. Neste momento eu diria que há um grande debate rolando nesse campo. Há uma parte que sugere existir alguma coisa maior, além da interpretação brutal e mecânica de outras áreas da ciência. Os behavioristas, por exemplo, defendem a inexistência da consciência. Dizem que ela é basicamente uma alucinação resultante da atividade glandular. Mas há uma pedra nesse sapato. Ainda que a ciência encontre conclusões muito aceitáveis sobre a existência da consciência nessa leitura, há muitas indicações de que ela é algo maior, que não se resume a uma atividade do organismo, que talvez seja a coisa mais importante do universo... A questão é que esse é um tema, talvez o único, que os cientistas não conseguem explicar. É o fantasma dentro da máquina. A ciência seria muito mais alegre, mais tranqüila se pudesse simplesmente exorcizar esse fantasma e provar que a consciência não existe. Mas eles não conseguem. A questão é: se nós nos dizemos artistas ou escritores interessados em todos os aspectos da consciência, que usamos todos dias, aliás, em nosso trabalho criativo, então aí a definição científica é muito útil. É interessante. Eles dizem simplesmente que a mente humana não está ali, na cabeça, onde deveria estar, sem explicar ou definir as coisas. Uma terra de ninguém. Mas, se queremos de fato explorar nossa criatividade e as coisas que nos fazem ser o que somos, se queremos ter um olhar diferente em relação ao que somos e como lidamos com as coisas que estão na nossa consciência, o melhor jeito está em interpretações além das oferecidas pela ciência.

Quem, por exemplo? Quem melhor toca nesse assunto são os estudos do ocultismo, da mágica. Para se tornar um mágico, em seu termo mais puro, você deve, basicamente, mergulhar num novo tipo de relacionamento consigo mesmo e com a maneira de entender o universo. Tudo começa nesse ponto, e você vai simplesmente experimentando. É possível atingir alguns resultados muito especiais e importantes revelações.

De que tipo? Diria que o propósito de toda mágica é transformar: tanto se você está falando dos alquimistas, que buscavam transformar chumbo em ouro, como quando você pensa nas pessoas que lidam com outras tradições do ocultismo. O que eles pretendem é transformar a si mesmos, tornar-se seres humanos mais completos, realizados. Isso é provavelmente a coisa principal: mudar nosso estado de consciência para deixar um lugar, para ser capaz de fazer uma série de coisas. É tudo questão de abrir a cabeça. Por exemplo, se você se permite ter contatos com entidades ou espíritos, anjos ou demônios, então não faz muito sentido tentar fazer isso tomando um ponto de vista de um mundo que não acredita que isso existe. Por outro lado, se você se permite a isso sem essas amarras, muitas idéias vão surgir, coisas vindas dessas entidades. Se você aceita que essas coisas existem, você está pronto para ter um diálogo com elas... Os resultados disso vão te surpreender, acredite. Não estou dizendo que isso é a parte mais importante ou a maior da mágica, mas é um de seus aspectos mais espetaculares e que parece atrair a maior parte das pessoas que estão interessadas no tema. Falar com entidades, visitar lugares em sua cabeça e vários outros truques do negócio... É verdade que, na primeira vez que você faz essas coisas, é bastante espetacular, impressionante. Mas, no final do dia, não é mais relevante do que a coisa central, que é transformar você mesmo dentro do seu subconsciente.

Fonte: Revista Trip


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